• Ana Ramalho

Amamentação - a minha história


Eu venho de um seio onde amamentar é comum. Sempre ouvi lindas histórias sobre amamentação. Do vínculo que se cria entre a mãe e o bebé. Como é natural este processo todo. E que o leite materno é a melhor alimentação que o bebé pode receber, que para além de saciar a fome e sede também fortalece o sistema imunitário do bebé. Por isso, sempre quis amamentar. Sempre soube que o faria.

Enquanto estava grávida, percebi que este processo tão "natural" é, frequentemente, adornado de glamour, encante e charme. Amamentar não era um processo tão fácil como eu imaginara. É uma tarefa árdua, cheia de desafios, muita dor e momentos de resignação. Afinal de contas, eu teria de aprender a alimentar a minha filha e ela teria de aprender a saciar-se. Seria a primeira vez de ambas nestas "andanças"!

Lembro-me, perfeitamente, do momento em que a enfermeira colocou a Emma pela primeira vez sobre o meu peito. Eu estava exausta, mas inebriada por aquele pequeno ser. Uns dos meus primeiros desejos foi dar-lhe mama. O medo correu-me pelas veias. Como saberei quando que chegou a hora? Como a devo segurar? Estas coisas nos livros e nas aulas pareciam bem mais fáceis, naturais e instintivas até. Na primeira tentativa a inexperiência denunciou-me. De uma maneira desajeitada lá conseguimos cumprir a nossa tarefa. Para minha alegria a Emma até tinha uma boa pega. Fiquei tão aliviada. Sabia que iria enfrentar algumas dificuldades. Mas era um bom presságio.

Nos primeiros dias, a Emma perdeu peso drasticamente. Como assim? Eu tinha feito tudo o que as enfermeiras tinham dito. Alimentava a minha filha sempre que esta pedia durante cerca de 10 minutos em cada peito. Fiquei destroçada! Meu mundo caiu ao chão! Era a pior mãe do mundo. E tudo piorou quando o pediatra me intimidou. Indicando que talvez fosse melhor recorrer ao leite artificial. Era tudo o que não queria. No meu íntimo sabia que eu era capaz de alimentar a minha filha. Por isso, estipulámos um prazo. Até ao oitavo dia de vida a Emma tinha que recuperar o peso perdido. A sentença estava dada!

A Emma era um bebé muito dorminhoco. Não acordava por nada. Nós mexíamos-lhe nos pés, tirávamos-lhe a roupa, molhávamos-lhe o rosto de modo a causar incomodo e nada. E muitas das vezes em que acordava recusava-se a comer ou mamava por apenas 10 minutos. Era um desespero e uma tristeza profunda. Eu sentia-me completamente inútil. Mas a minha maior preocupação era a sua saúde. Como poderia a minha filha crescer e desenvolver se ela se recusava a alimentar-se? Entrei em pânico!

Recorri a alguém que me pudesse orientar, aconselhar e ensinar. Então foi me dito que a dificuldade de amamentar vai muito além dos peitos doridos, rachados e feridos. Perceber que não estava só ajudou-me a não me sentir uma aberração. Essa orientadora deu-me dicas e falámos sobre amamentação sem qualquer tipo de tabu ou preconceito, expus-me, deixando a nu todas as minhas fraquezas, meus medos e minhas inseguranças. Quando a ajuda chegou fiquei muito aliviada. Finalmente, vi a luz no final no túnel.

Tentámos inúmeras técnicas de aleitamento, várias posição até descobrirmos quais as melhor para nós e pequenos truques para manter a Emma acordada. Sim, falo no plural porque descobri que amamentar não é uma tarefa a solo. Foram dias difíceis e sofridos, mas de muita dedicação e perseverança. Estipulámos horários para as mamadas para incutir uma rotina na Emma, para que ela aprendesse a pedir para ser amamentada. Tenho que confessar que os horários rígidos me deixavam louca. Sempre a olhar para o relógio a contar os segundos. Portanto, de três em três horas iniciava-se o ritual. Primeiro, acordava a Emma (tarefa difícil) e oferecia-lhe a minha maminha. Deixava que ela mamasse o que ela quisesse. De seguida, retirava leite com uma bomba manual para "enfiar pelas goelas abaixo" da "Bela Adormecida" (30ml) e para aumentar a produção de leite. Depois vinha a limpeza e esterilização da bomba e do biberão. Findo esse ritual sobrava-me cerca de uma hora / 40 minutos.(Caso tudo corre-se bem.) E depois repetia-se outra vez o ritual e outra vez... Mesmo durante a noite. Este processo para além de rígido era cansativo. Dormia cerca de duas horas por noite, e nunca seguidas. Só sei que eu não era eu. Não me sentia lá. Eu estava vazia e feita em cacos.

Claro que não nos safámos às dificuldades normais da amamentação. Sim, houve muita dor, peitos rachados e feridos até correr sangue a fio, muito choro (meu!). E depois chegaram as "amigas" cólicas. Foi uma fase que me pareceu durar uma eternidade. Demasiado tempo. Muitas foram as vezes em que me questionei se seria capaz. Muitas foram as vezes que duvidei de nós. Muitas foram as vezes em que pensei que não tinha nascido para ser mãe. Muitas foram as vezes que sucumbi ao choro. Chorei para apaziguar a alma, para aliviar o coração. Chorei de dor. Chorei e chorei... Até as lágrimas secarem. Então juntava os cacos de mim e arranjava forças para continuar. E valeu a pena. Vale mesmo a pena!

Neste momento, a Emma é uma comilona. Acabei com aqueles horários ao "estilo militar". Toda aquela rigidez deixava-me maluca e não conseguia dormir descansada. A Emma já pede para ser alimentada e nota-se que a hora da papa é muito aguardada e que ela desfruta desta tarefa tanto quanto eu (ou mais). Aqui por casa, decidimos-nos pela a amamentação em livre demanda. Eu confio completamente na minha bebé para ditar os horários e as quantidades de leite a ingerir em cada mamada. Ao fim de uma semana, a Emma já tinha recuperado todo o peso perdido. Por isso, considero que o principal objectivo foi vencido. Mas ganhámos muito mais do que isso.

Sei que muitas mais dificuldades virão. Mas sei, também, que nós as duas iremos lutar para as ultrapassar. Esta experiência ensinou que tenho muito mais força do que imaginava e que para seguir em frente, muitas vezes, basta acreditar. Tendo presente que o meu tempo e a minha paciência são o que mais de valioso posso oferecer à "mini me".

#amamentação #maternidade #newmom #peurpério

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