• Ana Ramalho

E como fica a amamentação depois do regresso ao trabalho?


Amamentar foi um objectivo que estabeleci para mim. Por quanto tempo? Isso não importava! O máximo que pudesse! Os benefícios da amamentação são incontestáveis. Só por isso já valia o esforço. Qual é a mãe que não quer o melhor para o seu filho? Para além de, a meu ver, ter algo de poético. Amamentar é, nada mais nada menos, alimentar o fruto que foi gerado dentro de mim. São momentos de magia, onde a troca de olhares e de mimos se desenrolam. Ajuda a fortalecer o vínculo. Naquele momento, o tempo pára e somos só nós. Não precisamos de mais nada nem de ninguém. Estamos ali uma para a outra envoltas naquele momento de entrega e de troca.

Mas com o regresso ao trabalho esse objectivo tornou-se um pouco mais desafiador. O meu maior receio era de o peito secar e não poder amamentar a minha bebé pelo menos até aos 6 meses. Sabia de ante-mão que iria valer todo o meu esforço e dedicação.

Então comprei uma máquina de extracção e comecei a armazenar leite de modo a ter uma reserva suficiente para alimentar a "pequena" nos primeiros dias de trabalho.

Durante a minha gestação informei-me sobre os meus direitos como trabalhadora. Aqui, na Holanda, os direitos das recém-mamãs são bem similares aos praticados em Portugal. Toda a mamã tem o direito de amamentar o seu bebé ou extrair leite nos primeiros 9 meses de vida do bebé durante o período laboral. Para tal efeito, os empregadores deverão permitir que as funcionárias se ausentem até um quarto do horário de trabalho da funcionária, ou seja, se a funcionária trabalhar 4 horas tem direito a 1 hora para a extracção de leite, para além das pausas normais. O empregador também deverá disponibilizar um espaço adequado para tal efeito, ou seja, limpo, higienizado, quente e confortável.

Aquando do meu regresso ao trabalho, informei o meu empregador da minha intenção de continuar a amamentar a minha bebé e que queria fazer valer o meu direito. Quando contei à minha chefe a minha intenção a cara dela passou por todas as cores do arco-íris, mas a sorrir consentiu. Nem poderia ser de outra maneira. O certo é que consentir é muito diferente de apoiar. Muitas pessoas não percebem porque insisto em continuar a amamentar. Para muitos é um esforço inútil e um capricho de uma mãe "Os meus sempre beberam leite em pó e estão criados", ouço eu muitas vezes quando digo que a minha bebé ainda mama. Quando vou até ao meu espaço para efectuar a extracção de leite sou seguida por olhares curiosos acompanhados frequentemente de uma piada ou um pitaco qualquer. E o tal espaço... bem... É só isso mesmo... um espaço. É o que se encontrar disponível àquela hora. Tanto pode ser uma casa de banho, uma despensa de arrumações, um buraco qualquer onde me possa sentar e trancar a porta de modo a ter um pouco de privacidade... claro que as condições mínimas não são asseguradas... nem sempre os espaços estão limpos e higienizados. E o conforto nem se fala... Quem pode estar confortável sentada numa sanita durante meia-hora?

Apesar de todos os contra-tempos e desconforto parar de amamentar será uma escolha nossa (minha e da minha bebé), que virá na hora certa para nós, quando não fizer mais sentido para uma de nós. Com esforço e determinação continuaremos na luta. Quando ela me pedir o peito tê-lo-á sempre disponível, seja para se alimentar ou para se confortar. E o desmame será algo que acontecerá naturalmente com muito respeito pela bebé, porque, neste momento, o meu peito não é apenas "meu". É também alimento, porto de abrigo, colo e consolo. É amor em forma líquida.

#trabalhovsmaternidade #maternidadereal #amamentação

0 visualização
  • Black Instagram Icon
  • Black Pinterest Icon
  • White Instagram Icon
  • White Pinterest Icon

© 2020 Todos os direitos reservados a O Cantinho da Mamã