• Ana Ramalho

E quem acode o pai na sala de parto!?


Tudo começou na quinta-feira, 14 de Setembro de 2017, a 3 semanas da data prevista para o parto. Parecia, inequivocamente, um dia bastante normal.

Por volta das 10 horas da manhã, estava eu a beber o meu merecido cafezinho quando recebo uma chamada da Ana. Nós costumamos falar via Whatsapp ou Facebook, por isso, estranhei e apressei-me a atender. "O que? Rebentaram as águas?" Pânico! A aventura iria começar! Queria me levantar e sair a correr dali e ir para junto da minha mulher. A minha filha estava a chegar ao mundo e eu não queria perder nada desse dia. Mas respondi calmamente que tinha que falar com o meu chefe e ver o que podia fazer. Passado 10 minutos, ligo-lhe de volta para a informar que iria para casa naquele instante, jurei-lhe ( e a mim também) que seria breve e que estaria junto a ela quando a nossa menina viesse ao mundo.

Pânico! Medo! Ansiedade! Nervosismo! Uma montanha russa de sentimentos!

Mas a Ana acalmou-me dizendo que tinha o dia planeado, que não me preocupasse, que tudo iria correr bem. Aí, percebi que eu estava mais nervoso e ansioso que a própria mãe.

Quando cheguei a casa, ainda não havia sinais de contracções e teríamos que aguardar. Deram-nos um prazo de 48 horas. Caso contrário, o parto teria de ser induzido. 48 HORAS? Teríamos de esperar esse tempo todo para ver a nossa bebé? De repente, o tão aguardado momento tornou-se tão longínquo, tão incerto, tão hesitante... Será que a bebé se arrependeu? Também quem quereria nascer num dia como este? Sombrio, frio e chuvoso?

Optamos por permanecer em casa. Aguardar num espaço que é nosso, onde temos a nossa privacidade, a nossa comodidade e longe daquele cheiro moribundo a hospital. Claro, que a Ana e a bebé foram constantemente acompanhados e monitorizados.

A sexta-feira anunciou-se vaga e longa. Ao final da tarde, as contracções intensificaram-se e começaram a a ser ritmadas. O momento estava a aproximar-se, cada vez mais real, mais palpável. Neste momento, a impaciência, a frustração e a impotência juntaram-se à montanha russa de sentimentos.

Com o avançar da noite e o desenrolar da acção, onde desempenhei um papel de figurante, fiz o que qualquer Homem na minha situação faria. Estive sempre presente, dei apoio, tentei ser o mais útil e participativo enchendo sacos de água quente e cronometrando as contracções. Ao longo da noite, segurei na mão da Ana na esperança de lhe tirar todas as dores, passei a noite em claro com ela, sofrendo em silêncio, sentindo cada contracção como uma facada no meu coração.

A este momento o sentimento de impotência consumia-me.

De manhã, quando as contracções tinham pequenos intervalos entre si e a intensidade das mesmas pareciam consumir todas as forças da Ana arrancámos para o hospital. Rezando para que hora estivesse próxima, para ter a minha menina nos braços e com o coração apertado por ver a mãe em tal sofrimento.

Sabia que o parto, muito provavelmente, não seria exactamente como tínhamos idealizado. Mas mais 12 horas até a médica dar luz verde para começar a fazer força? Neste momento, já estava numa montanha russa de sentimentos a alta velocidade, que rapidamente ia de um extremo ao outro e rodopiava sem parar, levando-me do desespero à ansiedade num segundo.

Quando a médica disse que já se via a cabecinha da bebé eu corri para vê-la. Tanto cabelo e tão escuro. Foi o meu primeiro pensamento. Agora sim, está quase! E a médica garantiu que mais meia hora e a pequerrucha estaria cá fora. Após alguns "É agora! Faça força! Mais Força!" nasceu a bebé mais linda que alguma vez tinha visto. Eram 21:01 horas de Sábado (16.09.2017). Era uma bebé saudável e irrequieta. Foi colocada directamente no peito da mãe. E aquela mulher exausta e dolorida pareceu que renasceu e ganhou forças para acolher, brincar e acarinhar aquele ser acabado de chegar ao mundo.

Quando a médica perguntou se eu queria cortar o cordão umbilical eu ofereci-me com uma prontidão militar. Claro que sim! queria participar em tudo. Na sala de parto, o pai é considerado uma "personagem secundária". A sua função principal é confortar e apoiar a mãe, ser o seu porto de abrigo e transmitir-lhe segurança. Portanto, esse momento é muito especial. Dura um segundo. Um segundo em que cortas a ligação que por tanto tempo foi essencial para a sobrevivência do bebé. A partir de agora, aquela bebezinha dependeria 100% de nós. E segurá-la, pela primeira vez, nos meus braços foi uma experiência simplesmente incrível, indescritível e única. Depois de tanta espera, ansiedade, nervosismo e sofrimento, poder tocar naquele ser que também é meu, que também é parte de mim, e saber que cabe a mim a responsabilidade de cuidar e proteger.

Nesse momento, entendi o verdadeiro sentido da frase "O amor não se divide, multiplica-se". E o meu amor por estas duas pessoas só podia crescer depois desta experiência. Nenhum Homem pode sentir tal dor física mas, acreditem, que ver alguém que amamos sofrer tanto sem nada que possamos fazer é o pior sentimento possível, que nos despedaça por dentro. E após uma experiência com esta grandeza e imponência qualquer Homem será transformado. Eu fui transformado!

#Relatodeparto #Paternidade #Paternidadeactiva

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