• Ana Ramalho

Regresso ao trabalho


Não me considero uma pessoa viciada no trabalho, mas gosto de ter uma actividade fora de casa. Gosto de ter uma rotina definida. Acordar bem cedo é a parte que custa mais. Sentir o ar fresco logo pela manhã revitaliza-me e quando chego ao trabalho já estou cheia de boa disposição e pronta para enfrentar mais um longo dia. Trabalhar faz-me sentir parte de algo, fazer-me sentir que faço alguma coisa pela sociedade. Mas o melhor do trabalho são as pessoas. Os momentos de convívio, de partilha e troca. As conversas demoradas sobre tudo e sobre nada. São as memórias daqueles que já passaram a ser algo mais do que apenas colegas. As pausas onde nos juntamos a trocar galhardetes, risadas e cochichos. Por essas e por outras, não me consigo imaginar sem ter uma actividade por um longo período de tempo.

Durante a minha licença de maternidade, houve dias em que desejei estar a trabalhar. Houve dias em que não queria estar "aprisionada" em casa entre choros e troca de fraldas numa corrida contra o tempo para manter a casa arrumada e a despensa abastecida de mantimentos nem que fosse apenas para o dia seguinte. Houve dias em que sentimentos como a solidão e a angústia se apoderaram da minha pessoa. Não me interpretem mal, não estava farta da minha filha, nem da minha nova vida, mas queria, mais do que isso, precisava da minha rotina de sempre. Precisava de me sentir por inteiro. Era como se uma parte de mim faltasse. Houve dias em que imaginei avidamente os meus dias de outrora. Sabia que nunca mais seriam iguais, porque eu já não era a mesma. Isso mexia comigo ao ponto de me deixar desconfortável.

Passei a minha gravidez a imaginar e a construir, mentalmente, a minha vida pós parto. Mas a realidade veio arrebatadora e insidiosamente impor as suas vontades. Bateu-me com toda a sua força. E como um tsunami chegou sem aviso prévio destruindo todas as expectativas que tão carinhosamente construí e arduamente teimei manter em pé deixando-me em cacos. Para além de me sentir do avesso, sentia que não me conhecia. E precisava de me resgatar. Nem que fosse só um pouco, nem que fosse aquela ínfima parte de mim que não tinha sido afectada (ainda) pelo tsunami. Por isso, queria voltar ao trabalho.

O tempo voa. Sem darmos conta já se passou a licença de maternidade. Foram três meses e meio agarrada à minha pipoquita (nome que dou secretamente à minha filha). E nesse breve período de tempo construímos um amor maior que o mundo. Vi, em três meses, crescer um vínculo tão forte como o aço, coisa até então inimaginável para mim. Um amor exacerbado, que acelera o meu coração, que me mantém vibrante, que dá vida e sentido aos meus dias. E quando nos estamos a começar a nos entender o mundo chama pela mamã e o regresso ao trabalho é inevitável. Sempre ouvi histórias horríveis sobre o regresso ao trabalho findo a licença de maternidade. O regressar ao trabalho é, sim, a parte mais fácil. Voltar ao ritmo, voltar à rotina, voltar à loucura da correria do dia-a-dia em nada se compara com a separação imposta. Ter de me afastar da minha cria e deixá-la aos cuidados de outrem foi algo cruel. Sei que estará bem entregue e que será bem tratada, mas saber que não estarei junto a ela todas as vezes que ela precisar de mim dói. Só de imaginar dói. Há um sentimento de culpa e de injustiça que me invade sempre que deixo a Emma no infantário. Como pode ser correcto separar um bebé tão pequeno do seu alimento, do seu porto de abrigo, do seu aconchego? A mim parece-me desumano...

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